Por Trás do Crédito: a Havanna crescia e mesmo assim entrou em recuperação
Edição de 23 de setembro de 2026
Boa tarde. Hoje: a empresa que entrou em recuperação mesmo crescendo, a duplicata que está ficando digital e a Shopee, que montou R$ 8 bilhões em crédito em 18 meses.
A História
A Havanna estava crescendo. Então por que entrou em recuperação?

A Havanna faturou cerca de R$ 420 milhões em 2025, tem mais de 250 unidades no Brasil e abriu mais de 30 novas operações no primeiro semestre de 2026.
Mesmo assim, entrou em recuperação extrajudicial.
O motivo não estava nas cafeterias.
A recuperação reúne seis empresas do grupo e cerca de R$ 127 milhões em dívidas. No pedido, a Café Del Plata, responsável pela operação Havanna, afirmou que suas atividades estavam em "constante ascensão".
Mas havia um problema: a empresa era avalista das demais companhias do grupo.
Entre elas estava a Fragrance, de perfumes, que sofreu durante a pandemia. As dívidas foram contraídas com a Selic abaixo de 3% e ficaram muito mais caras com a alta dos juros.
As empresas tinham dado garantias umas pelas outras em dívidas com Banco do Brasil, Banco Pine e Banco Sofisa.
É o chamado aval cruzado.
Na prática, uma empresa pode estar saudável sozinha e, ainda assim, ser atingida pelo problema financeiro de outra.
E havia outro problema.
A Café Del Plata enfrentava um pedido de falência da Top Cau, fabricante de chocolates, por notas fiscais não pagas de cerca de R$ 4,2 milhões.
Segundo a própria documentação da recuperação, esse pedido também pesou na decisão de incluir a empresa no processo.
Só então vem o plano.
Para os credores concursais, o deságio chega a 95%, com 12 meses de carência e pagamento em dez parcelas anuais. O plano também prevê até R$ 2,5 milhões em dinheiro novo, com remuneração de CDI + 9% ao ano.
Os bancos não gostaram. Banco do Brasil, Santander, Daycoval, Sofisa e Omni impugnaram o plano, que ainda depende de homologação judicial.
Na Mira
Três sinais da semana

A duplicata está ficando digital
Monkey e B3 realizaram a primeira negociação comercial de antecipação de recebíveis no ambiente de duplicata escritural. O novo modelo dá rastreabilidade ao recebível e começa a tornar digital uma peça central do crédito empresarial, prometendo destravar R$ 11 trilhões em crédito.
Leitura: menos incerteza sobre o lastro pode significar mais eficiência para financiar recebíveis.
Fonte: Finsiders Brasil
FIDCs em ascensão
Em painel da J.Safra Conference, executivos do mercado de crédito contaram que tecnologia e IA reduziram o processamento de FIDCs de 40 dias para um e que o diferencial passou a ser escolher bem os ativos e gerir o risco, não crescer volume.
Leitura: a eficiência operacional tende a ampliar a oferta de FIDCs. Com mais estruturas disponíveis, cresce a importância da diligência sobre lastro e originador.
Fonte: O Especialista
O venture capital virou credor
A DOMO.VC, com R$ 850 milhões sob gestão, lançou uma vertical de crédito estruturado apoiada por um FIDC que pode chegar a R$ 100 milhões.
Leitura: nem toda startup precisa vender mais um pedaço da empresa para crescer. O FIDC começa a financiar o capital de giro entre uma rodada e outra.
Fonte: NeoFeed
A História
A Shopee virou credora. E a conta ainda não chegou.

A Shopee não quer só vender para você.
Quer emprestar para você.
Os dois FIDCs ligados à Shopee somavam uma carteira de cerca de R$ 8 bilhões em agosto de 2026, alta de 208% em doze meses.
O principal deles, o MONEE FIDC I, existe desde 2022, mas passou dois anos em marcha lenta. A virada veio em 2025: saiu de R$ 1,5 bilhão em janeiro daquele ano para R$ 7,4 bilhões.
O bastidor está no nome.
A Monee é a financeira controlada pela Shopee. Ela foi autorizada pelo Banco Central em fevereiro de 2026 como sociedade de crédito, financiamento e investimento, e é isso que dá à plataforma a licença para operar crédito.
A estrutura foi montada em camadas. No segundo semestre de 2025, a Shopee criou um segundo fundo, o MONEE FIDC II. Para o BTG, é sinal de que ela está ganhando flexibilidade de funding e se preparando para uma expansão maior.
Por que um marketplace quer ser banco?
Porque o crédito prende o usuário. Ao seller, o capital de giro dá menos dependência de banco e mais integração à plataforma. Ao consumidor, o parcelamento dá mais poder de compra, e ele volta a comprar.
É o mesmo roteiro que transformou o Mercado Pago num dos negócios mais rentáveis do Mercado Livre. A diferença é o tempo: o Mercado Livre levou mais de uma década, e a Shopee tenta em poucos anos.
E ela está chegando lá.
Em junho, os FIDCs do Mercado Livre somavam R$ 8,1 bilhões, com alta anual de 23,7%.
A Shopee cresceu quase nove vezes mais rápido e praticamente empatou.
Agora vem a parte que o crescimento esconde.
A inadimplência da carteira do Mercado Livre, mais madura, está em 9,5% nos atrasos de até 90 dias e em 11,2% acima disso.
Para a carteira da Shopee, ainda não dá para saber. É uma carteira jovem. O BTG alerta que uma carteira que cresce rápido parece mais saudável no início, porque boa parte dos empréstimos ainda não teve tempo de chegar às faixas de atraso mais longas.
O setor já mostrou como isso acontece. Os fundos da 99 acrescentaram R$ 590 milhões em inadimplência entre dezembro e junho. Foi 75% de toda a alta entre os 18 fundos de apps de entrega e e-commerce mapeados.
Fora da Curva
O agente de IA que mostra de onde veio a resposta

O Tomé, agente de IA da Liqi, já processou 2,07 milhões de documentos públicos, o equivalente a 6,1 milhões de páginas.
Ele acompanha diariamente 39,1 mil fundos, 1,3 mil companhias abertas e 2,4 mil debêntures.
O diferencial não é só resumir tudo isso.
O Tomé responde às perguntas indicando as fontes que sustentam cada resposta.
Para o crédito, isso importa.
Uma IA que resume economiza tempo.
Uma IA que encontra a informação, mostra de onde ela veio e permite voltar ao documento original começa a participar da análise.
O próximo ganho de produtividade no crédito pode não ser escrever melhor o relatório.
Pode ser encontrar mais rápido o que estava escondido nos documentos.
A Frase da Semana
"Uma carteira em rápido crescimento pode parecer, inicialmente, mais saudável."
Tradução: no crédito, o atraso chega depois do empréstimo. Quando a carteira cresce rápido, os créditos novos diluem os antigos e a inadimplência parece menor do que vai ser. O número de hoje só conta a história inteira quando a carteira envelhece.
Por Trás do Crédito é a newsletter da XO Digital. Toda quarta, 12h15. Conteúdo informativo e de opinião editorial sobre o mercado. Não constitui recomendação de investimento nem oferta. Rentabilidades passadas não garantem resultados futuros.

